Implantação · 9 min de leitura

Integração de loja virtual com ERP: o que definir antes de contratar

Origem de cada dado, frequência, conflitos, falhas e reconciliação, com matriz de dados preenchida e roteiro de teste. Leve para o orçamento da integração.

Por Guilherme Fernandes, responsável pelos projetos da SouLoja · Atualizado em

Ilustração de duas máquinas de papel ligadas por tubos que levam fichas de produto, preço e pedido

Integrar a loja virtual com o ERP é definir, antes de qualquer código ou conector, qual sistema manda em cada dado, quando a informação passa de um para o outro e o que acontece quando a passagem falha. Sem essas três respostas, a integração até funciona no dia do teste, mas gera pedido duplicado, estoque negativo ou preço diferente no primeiro pico de vendas.

Este guia é para quem já usa um ERP, ou vai passar a usar, e precisa colocar a integração no escopo da criação da loja. Ele não indica conectores: a disponibilidade de cada um depende da plataforma, do plano e do fornecedor do ERP, e precisa ser conferida na documentação deles. Se você ainda está montando o documento de requisitos, a seção de sistemas do modelo de briefing da loja virtual é o ponto de partida; aqui o assunto é o detalhamento que o fornecedor da integração precisa para orçar.

Qual sistema é a origem oficial de cada dado?

Faça a pergunta dado por dado, e às vezes campo por campo. As respostas abaixo são as mais frequentes, mas não são regra.

Produto. O cadastro fiscal (código, nome fiscal, unidade, dados tributários) costuma nascer no ERP. O conteúdo de vitrine (descrição comercial, fotos, categoria da loja, texto de busca) costuma nascer na loja, porque o ERP não foi feito para isso. Dividir o produto em dois grupos de campos evita que uma sincronização apague a descrição escrita para o site.

Estoque. Se há loja física, depósito ou outro canal, a origem tende a ser o ERP, e a loja só lê o saldo disponível para venda online. Defina se existe estoque de segurança, que é uma quantidade que a loja não mostra para absorver a defasagem entre os sistemas.

Preço. Pode nascer em qualquer um dos dois, mas só em um. Promoções criadas no painel da loja precisam de regra própria: o ERP recebe o preço praticado no pedido, mesmo sem conhecer a promoção.

Cliente. No varejo, o cadastro costuma nascer no checkout da loja e seguir para o ERP com o primeiro pedido. No B2B, pode ser o inverso: o cliente é aprovado no ERP e só então ganha acesso à loja.

Pedido. Nasce na loja. O ERP passa a ser a origem do andamento: separação, faturamento, envio. A loja recebe esses status para mostrar ao cliente.

Nota fiscal. É emitida no ERP ou no emissor ligado a ele. A loja recebe número e chave de acesso, quando precisa exibi-los ao cliente ou repassá-los à transportadora.

Com que frequência os dados passam e o que fazer quando algo falha?

Há três formas de mover um dado: por evento, quando um sistema avisa o outro assim que algo acontece (webhook); por intervalo, quando um sistema consulta o outro de tempos em tempos; e por lote, quando a troca é manual ou agendada para um horário. Pedido pago e estoque costumam pedir evento ou intervalo curto. Cadastro de produto aceita intervalo maior.

A troca por evento parece instantânea, mas as plataformas documentam limites que o projeto precisa tratar. Na documentação da API da Nuvemshop, consultada em 20/10/2026, o webhook espera uma resposta de sucesso em até 3 segundos; sem resposta, a plataforma reenvia o aviso até 16 vezes ao longo de 48 horas. A mesma página avisa que os avisos podem chegar fora de ordem e repetidos, e que garantir a idempotência é responsabilidade de quem integra. A documentação de desenvolvedores da Shopify, consultada na mesma data, diz que a ordem dos webhooks não é garantida, que a entrega também não é, e recomenda rotinas de reconciliação que busquem periodicamente os dados na plataforma.

Na prática, isso vira quatro requisitos:

  1. Conflito. Quando os dois sistemas mudam o mesmo dado, vale a origem oficial, não o último a gravar.
  2. Duplicidade. O mesmo aviso processado duas vezes não cria dois pedidos nem baixa o estoque duas vezes.
  3. Registro. Cada troca grava data, hora, dado enviado, resposta e erro, num lugar que alguém da operação consegue consultar.
  4. Reconciliação. Uma rotina compara pedidos, estoques e preços entre os sistemas em horário definido e aponta ou corrige as diferenças.

Matriz de dados: origem, destino, regra e resposta a falha

A matriz abaixo foi preenchida com dados demonstrativos, para uma loja fictícia de varejo com loja física e ERP. Ela não descreve a integração de um cliente nem de um ERP específico. Copie a estrutura e troque cada linha pela realidade da sua operação.

Dado / campo Origem Destino Gatilho e frequência Regra Se falhar
SKU e código de barras ERP Loja Ao cadastrar no ERP Chave que liga os dois sistemas; nunca muda Produto não é publicado; alerta para o cadastro
Nome fiscal, unidade, dados tributários ERP Loja (não exibidos) Ao alterar no ERP Loja não edita Mantém o último valor; registra erro
Descrição, fotos, categoria da loja Loja Nenhum Não sincroniza ERP não sobrescreve Não se aplica
Saldo disponível online ERP Loja Por evento, com conferência a cada 15 minutos Saldo do ERP menos estoque de segurança de 1 unidade Produto fica indisponível até a próxima conferência
Preço de tabela ERP Loja Ao alterar no ERP Loja não edita o preço de tabela Mantém preço anterior; alerta para o comercial
Preço promocional Loja ERP (no pedido) Junto com o pedido ERP registra o valor praticado Pedido entra em fila de revisão
Cadastro do cliente Loja ERP No primeiro pedido pago CPF ou CNPJ identifica o cliente; não duplica Pedido segue; cliente entra em fila de revisão
Pedido pago Loja ERP Por evento, ao confirmar pagamento Identificador do pedido impede duplicidade Reenvio automático; depois de 1 hora, alerta
Pedido cancelado Loja ou ERP O outro Por evento Devolve o saldo ao estoque Reconciliação diária identifica
Status de separação e envio ERP Loja Por evento Loja só exibe; não altera Cliente vê último status; alerta se parado por 1 dia útil
Código de rastreio ERP Loja Ao faturar Enviado ao cliente pela loja Atendimento envia manualmente
Número e chave da nota fiscal ERP Loja Ao emitir Exibidos no pedido do cliente Fica disponível no ERP; atendimento envia

Os intervalos de 15 minutos, 1 hora e 1 dia útil são valores de exemplo para mostrar onde a decisão entra. O certo para a sua loja depende do volume de pedidos, do giro do estoque e do que o conector ou a API permitem.

Conector, adaptação ou integração própria?

Com a matriz pronta, dá para comparar as três formas de entregar a integração pelo mesmo critério: quantas linhas cada uma cobre sem trabalho extra.

Caminho Quando cabe O que conferir antes Quem mantém
Conector disponível Plataforma e ERP têm integração pronta e ela cobre as linhas da matriz Documentação do conector, plano exigido nos dois lados, campos cobertos, frequência, mensalidade e canal de suporte O fornecedor do conector
Conector com adaptação O conector cobre a maior parte, mas falta um campo ou uma regra Se o conector aceita configuração ou extensão, e quem responde pela parte adaptada Fornecedor do conector e quem adaptou
Integração própria Não há conector, ou as regras da matriz fogem do que ele faz APIs dos dois sistemas, limites de uso, ambiente de teste, registro e reconciliação no escopo Quem desenvolveu, por contrato de manutenção

Um conector que não cobre a linha de pedido cancelado, por exemplo, deixa uma tarefa manual permanente para a equipe. Vale anotar essas lacunas na matriz antes de comparar preços. Quando nenhuma opção pronta cobre o que é indispensável, a decisão passa a ser entre simplificar a regra ou desenvolvê-la, como explica o guia sobre plataforma pronta ou sob medida. Para ver como essas escolhas se aplicam a uma plataforma específica, leia sobre a integração Tray e ERP.

Roteiro de teste de ponta a ponta

Faça os testes em ambiente de homologação, com o meio de pagamento em modo de teste e produtos de teste no ERP. Marque cada linha só quando o resultado aparecer nos dois sistemas.

  1. Cadastrar um produto com duas variações no ERP e conferir se ele aparece na loja com SKU, preço e saldo corretos.
  2. Escrever a descrição na loja, alterar o preço no ERP e conferir se a descrição continua intacta.
  3. Zerar o saldo no ERP e conferir se a variação fica indisponível na loja no prazo combinado.
  4. Fazer um pedido pago na loja e conferir se ele entra no ERP uma única vez, com cliente, itens, frete e desconto.
  5. Recusar um pagamento e conferir se nenhum pedido chega ao ERP como aprovado.
  6. Cancelar um pedido e conferir se o saldo volta nos dois sistemas.
  7. Faturar no ERP e conferir se status, rastreio e nota aparecem no pedido do cliente.
  8. Interromper a integração por alguns minutos, fazer um pedido e conferir se ele chega quando a conexão volta e se o registro mostra a falha.
  9. Reenviar o mesmo aviso de pedido pago e conferir se não surge pedido duplicado.
  10. Rodar a reconciliação com uma diferença proposital de estoque e conferir se ela é apontada ou corrigida.

Que condições afetam a integração?

  • Plano e fornecedor. O mesmo conector pode exigir plano específico na plataforma, no ERP ou nos dois. Confirme na documentação de cada lado, com data da consulta.
  • Responsabilidade. Escreva quem atende quando o pedido não chega: o fornecedor do ERP, o do conector ou quem fez a integração própria.
  • Dados pessoais. Cadastro de cliente circula entre sistemas. Defina quem tem acesso aos registros de integração e por quanto tempo eles ficam guardados.
  • Loja física. Se o estoque é compartilhado com o balcão, a defasagem entre venda física e online é o maior risco. O guia para levar a loja física para a internet trata dessa operação.

Próximo passo

Leve a matriz preenchida e o roteiro de teste para a conversa sobre a criação de loja virtual profissional: com eles, a integração entra no escopo com entregas que podem ser testadas. Se a matriz mostrou regras que nenhum conector cobre, a avaliação passa pelo desenvolvimento de e-commerce sob medida.

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